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4 de jul de 2012

“CAIRO 678” – Considerações

O presente comentário sobre o filme “Cairo 678” do diretor Mohamed Giab implica em tomá-lo em seu movimento, isto é, desde onde este se compõe enquanto território. É analisar não só uma ficção baseada em fatos reais, mas pensá-la enquanto a crítica de uma realidade social que envolve homens e principalmente mulheres que, apesar de todos os avanços sociais e tecnológicos na história da humanidade, ainda são abusadas, não só sexualmente como mostra o filme, mas moralmente por sua condição de ser feminino. Ressalto o grandioso valor dessa obra como alerta a um mundo de violência que corre paralelo e silencioso e que merece sob a minha ótica mais barulho, gritos e práticas revolucionárias. Assim, escolhendo por analisar o "Mesmo" e a "Diferença" (ver notas abaixo) em uma obra de ficção cinematográfica, delineiam-se, então, questões a respeito do que é ser homem, mulher, cristão, muçulmano, oriental, ocidental, pertencentes à determinada classe social, etc, desconstruindo essas identidades para dar voz ao feminino e ao masculino que atravessa e compõe as estórias narradas. Estórias que se entrecruzam num jogo de tempo e imagens particularmente fantástico na montagem de cenas instigantes e belas mesmo no tocar temas de ordem tão dramática. Não reconstruo aqui a estória com a intenção consciente de provocar a curiosidade pela experiência mesma do encontro com a obra e fazer dessa iniciativa uma série de possíveis diálogos no decorrer... Seja em forma de comentários escritos ou falados. Nesse sentido, o filme se revela uma obra de arte na sua relação com o cinema e com a história, cujo roteiro se desenrola na duplicidade do tempo do "Cronos", o tempo dos relógios e do tempo do "Aion", o tempo do acontecimento sendo que, o reconhecimento de uma obra se dá na ordem do acontecimento pela sua Diferença, por aquilo que a torna específica, singular. Eis, então, um território, um cenário e as diversas linhas que o compõem. Neste território, o do cinema e, mais especificamente, deste filme, supõem-se forças que podem ou não manter o que sempre existiu. A estória se monta num contexto econômico que produz o social, mais especificamente o religioso conservador e o seu contraste com outras formas de ser homem e mulher no modo laico. Supõem-se, inicialmente, valores que produzem simbolicamente modos de ser que só permitem uma via, a da identidade, da repetição do Mesmo. Porém, ao contrário disto, percebe-se, também, nas narrativas encenadas a circulação do desejo como uma força revolucionária capaz de transformar, produzir o inesperado. Isto é, fazendo Diferença ao provocar no espectador uma forma de agenciamento que possibilita uma saída criativa implicando mudanças no olhar além do que é proposto diretamente no filme, mas disparando uma reflexão sobre suas próprias vidas e sua condição de ser feminino e/ou masculino. Como cada um de nós circula por esses modos de subjetivar e qual a nossa implicação na relação com o outro desde atravessados por uma lógica do capital econômico e social que produz outras lógicas de subjetivação como as de submissão ao gênero (no caso do feminino ao masculino)relacionados a uma forma religiosa que perpassa o filme apontando o seu poder de manter o feminino neste mesmo lugar. Isto é, como nós mesmos estamos atravessados por esse discurso e produzimos essa realidade. Seja no modo de submissão ou dominação desde o modo de fazer circular a palavra construindo discursos que se realizam também no ato de educar. Por enquanto foi isto que se pretendeu abordar nesta curta análise: interrogar sobre as estratégias de formação e realização do desejo no território em que se desdobra o enredo. Tratando-se de, entre a perseverança de homogeneização da lógica do capital que produz essa realidade, engendrar um olhar do diferente e pensá-la enquanto obra, enquanto uma massa a modelar e remodelar, colorir e transformar. Também enquanto paisagem, que se deixa afetar pelo tempo e pelos acontecimentos que se atravessam e compõem outras formas, outras paisagens. Para finalizar, lembro ainda que me nutro de minha experiência seja ficcional ou vivida, porém sempre parcial, implicada emocionalmente pela minha própria condição identitária não menos submetida ao sistema que produz não exatamente esse tipo de subjetividade, mas que no silêncio se mostra conivente. Notas: O desejo nesse contexto corresponde ao que "Nietzsche chamou de vontade de Potência, (...). (...) se processa sempre de forma inconsciente (...) e (...) constitui a essência da vida como Eterno Retorno das Diferenças Absolutas" (Gregorio F. Baremblitt, 1992, p. 163), podendo se constituir como uma força revolucionária. (Des)dobramentos remete ao processo de construção e desconstrução dos territórios. Cronos, do termo grego chrónos, diz respeito ao tempo cronológico, constituído de presentes que se reincidem em uma ordem sucessiva e linear, compreendendo os fatos a partir de uma causalidade inserida num processo evolutivo que respeita a evolução, isto é, que se organiza entre os fenômenos ocorridos no passado, realizados no presente e que, consequentemente, determinam o futuro. Aion, termo também original do Grego, é concebido como um paradoxo do tempo. Nesta lógica temporal, o tempo está subordinado ao acontecimento, este se atravessa na ordem circular composta pelo Cronos, configurando uma nova dimensão à temporalidade onde presente passado e futuro coexistem simultaneamente.

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